a história que nos une

A batida forte dos tambores que ressoa no coração do Brasil carrega o eco de cerca de três séculos de história, fé e profunda
resistência cultural. Em especial na cidade goiana de Catalão, o ano de 2026 é significativo, ele marca a edição comemorativa de 150 anos de celebração das Congadas ininterruptas nesta localidade.

Desde 1876, negros escravizados da região e recém-alforriados, saídos de Minas Gerais, entoaram os primeiros louvores no sudeste de Goiás. Desde então, o Congado se firmou como um território sagrado de preservação da identidade afro-brasileira e de profunda
devoção à Nossa Senhora do Rosário.

Essa trajetória secular de resistência e continuidade comunitária ganhou consagração máxima em junho de 2025, quando o Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), entidade vinculada ao Ministério da Cultura, registrou oficialmente os Saberes
do Rosário como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, um ato histórico de reparação social e orgulho que eterniza a herança
sagrada dos nossos capitães, capitãs, dançadores e dançadoras.

O QUE SÃO AS CONGADAS?

Uma introdução ao Reinado de Nossa Senhora do Rosário no sudeste goiano

Em Catalão, agosto não chega pelo calendário. Chega pelo ouvido. É quando o “tum-tum” das caixas começa a ecoar nos quintais e a se aproximar das ruas, anunciando que os ternos voltaram a ensaiar. Quem cresceu nessa cidade aprendeu a reconhecer o mês pelo som antes de aprender a lê-lo no papel.

Esse som carrega cerca de três séculos de história no Brasil — e um século e meio no sudeste de Goiás. Ele vem da África Centro-Ocidental, atravessou o Atlântico dentro dos navios negreiros, subiu as montanhas de Minas Gerais atrás do ouro e desceu para as lavouras de café goianas. Onde parou, criou raiz. E permaneceu.

As Congadas são, ao mesmo tempo, uma festa religiosa, uma organização comunitária e um ato político de longa duração. Este texto procura explicar o que elas são, de onde vêm, como funcionam e por que o território formado por Catalão, Ouvidor e Três Ranchos ocupa um lugar singular nessa história.

Festejos da congada uberlandense iniciaram na zona rural e depois seguiram para São Pedro do Uberabinha em 1876 Foto: Jeremias Brasileiro/Acervo Digital

Festa do Congado de Uberlândia completa 142 anos neste ano. Foto: Jeremias Brasileiro/Acervo Digital

Congada, Congadas, Congado

e por que o IPHAN diz “Saberes do Rosário”

Comecemos pelo nome, porque ele diverge — inclusive entre pesquisadores. Não há consenso, e a variação de termos é, ela própria, um dado cultural: reflete diferenças regionais reais e disputas sobre quem nomeia o quê.

Na prática, os três termos mais usados circulam assim:

Congada costuma designar a dança e o festejo específico, o ato de festejar — “a congada de Catalão”;

Congadas, no plural, abraça a diversidade de estilos, fardas e ritmos, o encontro de todos os ternos num só cortejo;

Congado refere-se ao universo cultural e religioso como um todo: o sistema, o território de pertencimento, a identidade de quem vive essa fé no cotidiano — “eu sou do congado”.

A esses se soma o Reinado, termo que enfatiza a coroação de reis e rainhas e a constituição de uma corte, e que é especialmente forte em Minas Gerais. A pesquisadora Leda Maria Martins observa que os termos, ainda que tomados um pelo outro, guardam diferenças: guardas de congo podem existir isoladamente, ligadas a santos de devoção, enquanto os Reinados supõem uma estrutura simbólica mais complexa, com a instauração de um Império e seus ritos.

Há ainda uma crítica que vem de dentro da tradição, e que vale registrar. Reinadeiros questionam o uso de Congado como termo guarda-chuva justamente porque ele toma a parte pelo todo: quem é do Moçambique não veio do Congo; quem é marujeiro, vilão ou catupé também não. Foi atento a esse debate que o IPHAN adotou a expressão “Saberes do Rosário” ao registrar a manifestação como Patrimônio Cultural do Brasil — uma fórmula que evita eleger uma vertente como representante das demais e desloca o eixo para o que é comum a todas: a fé no Rosário.

Para o leitor que chega agora, fica a regra prática: os termos convivem, variam por região e por comunidade, e nenhum deles está errado. O que os une é a batida.

Ternos: o ritmos e as cores da tradição

Organizada em torno das Irmandades e dos chamados Ternos, a estrutura da Congada funciona sob uma rigorosa hierarquia tradicional de respeito e ancestralidade. Cada Terno é liderado por um Capitão (ou Capitã), que conduz o grupo de dançadores e dançadoras pelas ruas. Quem participa o faz, muitas vezes, por herança familiar ou por puro amor à identidade de sua comunidade, que reúne desde crianças pequenas que dão seus primeiros passos na farda até anciãos e anciãs que guardam em suas memórias os cânticos de um século atrás.

A engrenagem que move a Congada é composta pela diversidade de seus Ternos, cada um com sua farda (vestimentas e acessórios), seus instrumentos e sua função ritualística específica. Embora haja variações regionais, a espinha dorsal dessa festa se move ao ritmo de grupos tradicionais que se complementam no cortejo:

Foto: Acervo do Projeto Encontro Estadual de Congadas.

  • Moçambique: Considerado por muitos o coração ancestral da festa. Seus dançadores utilizam as “gongas” (guizos presos aos tornozelos), fazendo com que cada passo marcado no chão crie um ritmo de metal e terra, acompanhado por canções profundas e de forte herança africana;
  • Catupé: É o terno caracterizado pela alegria, pelos ritmos rápidos e pela forte percussão dos pandeiros e caixas. Suas fitas coloridas e cocares dão um movimento vibrante e festivo ao cortejo;
  • Congo / Congada: Ternos que trazem a representação direta da nobreza africana, com roupas que remetem às antigas cortes ibéricas e africanas, cantando a devoção de forma imponente;
  • Marujos e Vilões: Grupos que incorporam coreografias com bastões de madeira (no caso dos Vilões) ou que fazem alusão aos navegadores e protetores do mar (Marujos), enriquecendo o mosaico visual e rítmico da festa;
  • Penacho: Terno que evidencia a fusão de culturas do Brasil: a negritude africana, com suas danças, cantigas e instrumentos ancestrais, vestindo adereços do indígena brasileiro.
Foto: “Congado dos Pretos em Morro Velho”, produzida pelo alemão Augusto Riedel entre 1868 e 1869
 

Das Irmandades ao Rosário: as origens do Brasil

A devoção a Nossa Senhora do Rosário não nasceu no Brasil. Ela foi introduzida na África Central ainda no final do século XV, levada por missionários dominicanos como estratégia de catequese. Quando os povos africanos escravizados foram trazidos para cá — majoritariamente Banto, das regiões do antigo Reino do Congo, de Angola e de Moçambique —, já traziam consigo esse repertório simbólico. No Reino do Congo, cujos chefes principais haviam aceitado o batismo em 1491, o catolicismo era, havia muito, parte do vocabulário político e religioso.

Daí a fórmula que os pesquisadores Núbia Gomes e Edimilson Pereira consagraram: o congado tem origem luso-afro-brasileira. O catolicismo português forneceu os elementos europeus da devoção; a Igreja, no Brasil, reforçou essa crença; e os negros, de posse desses ingredientes, deram forma ao culto e à festa.

No Brasil, os primeiros registros das Festas em Louvor a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito datam do início do século XVIII — por volta de 1711, na antiga Vila Rica, atual Ouro Preto. Não é acaso: o ouro atraiu para as Minas um enorme contingente de africanos escravizados, e ali a manifestação encontrou sua primeira base.

A estrutura que a abrigou foram as Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos — associações de leigos, regidas por compromissos aprovados pela Igreja ou pela Coroa, que reuniam pessoas escravizadas, alforriadas e livres em torno do culto a santos negros: Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia.

E aqui está o ponto que nenhuma leitura séria da Congada pode contornar. Essas festas cumpriam, simultaneamente, duas funções opostas. Para o Estado e para a Igreja, permitir a coroação simbólica de “reis do Congo” era estratégia de controle social e manutenção da ordem — dar aos negros uma realeza de faz de conta era um modo de administrá-los. Para os escravizados, a mesma festa era resistência: um modo de recriar identidade nas condições da sociedade escravista e de manter vivas as ligações rituais e religiosas com a África. Como sintetiza a historiadora Marina de Mello e Souza, os reis negros do Brasil escravista foram polos aglutinadores de comunidades que construíam novas identidades a partir dos legados africanos.

Essa ambiguidade não é um defeito da tradição. É o motor dela. A Congada nasce no interior de um mecanismo de dominação e o converte, por dentro, em instrumento de sobrevivência cultural.

Duas figuras ancoram essa memória. Chico Rei — Francisco da Natividade —, o rei africano que, segundo a lenda mineira, comprou a própria alforria e a de seus companheiros após enriquecer numa mina, ergueu uma igreja e formou o primeiro grupo de congo do estado. E, mais ao fundo, a Rainha Ginga (Njinga Mbandi), soberana que resistiu aos portugueses em Angola no século XVII e cuja memória os bailados rememoram.

Vale um registro de precisão. O folclorista Câmara Cascudo descreveu classicamente o Congado a partir de três elementos: a coroação dos reis do Congo, as embaixadas (duelos verbais dramatizados entre reinos) e as danças guerreiras comemorativas. Essa estrutura completa, porém, praticamente já não se encontra — e, no sudeste goiano, ela nunca se firmou. Como documenta a pesquisadora Janaina Faleiro Lucas Mesquita, em Catalão não há representações de Ginga ou Chico Rei, nem embaixadas: a família real acompanha os cortejos, mas sem encenação dramática. O que se vê é o cortejo, o louvor e a devoção. Isso não é ausência — é uma feição própria, e uma das chaves para entender o que a região fez com o que recebeu.

O mito do encontro com a Santa

Sustentando tudo isso, há um mito fundador que muda conforme o lugar onde é contado. No litoral, a imagem da Santa aparece no mar. Em Minas, na mata ou na lagoa. Em Goiás, ela aparece numa gruta, presa a uma pedra.

A narrativa é conhecida: os brancos tentaram de todas as formas retirar a imagem da pedra, e falharam. Então os escravizados pediram permissão para tentar. Um a um, os ternos foram cantando e dançando — o congo, o vilão, o catupé — e a Santa apenas se movia um pouco. Até que veio o moçambique, tido como o mais simples, com latinhas cheias de sementes amarradas aos pés. Foi com ele que a Santa saiu da pedra e o acompanhou.

Contado por muitas gerações, o mito ganha personagens e episódios a cada narração, mas sua essência não se altera: foram os negros, e não os brancos, que conseguiram mover a imagem sagrada. É desse núcleo que deriva um dado ritual concreto e observável até hoje — cabe ao moçambique a função sagrada de escoltar a imagem da Santa nos cortejos.

Foto: Festa de Congados de Nossa Senhora do Rosário. Fotógrafo: José Severino Soares. Ano: 1889. Acervo: Arquivo Público Mineiro.
 
Foto: Congado de Minas Gerais, Brazil, 1876
 

A estrada de Minas: como a devoção chegou ao sudeste goiano

Se as Congadas nascem no Brasil no início do século XVIII, no sudeste goiano a história é outra, e quase um século mais tarde.

O caminho está documentado. A trajetória dos africanos escravizados que chegaram a esta região partiu de Vila Rica, passou pela antiga São Domingos — hoje Araxá —, seguiu para Paracatu, entrou em Goiás por Santo Antônio do Rio Verde e alcançou a então Vila de Catalão por volta de 1820, para o trabalho nas lavouras de café.

A busca inicial era por ouro e pedras preciosas; o que se firmou, no entanto, foi a agricultura.

O contingente foi expressivo, e há um dado que costuma surpreender: estatísticas de 1919 apontavam Catalão como a cidade com maior número de negros do estado de Goiás — à frente da própria Cidade de Goiás, antiga capital do ciclo do ouro. Pesquisadores atribuem essa concentração ao fato de a região não ser forte em mineração, o que a tornava um provável refúgio.

Oficialmente, a festa acontece desde 1876

data que fundamenta a comemoração dos 150 anos em 2026. Mas os fatos que marcaram seu início são permeados por mitos, e a historiografia local registra pelo menos três versões, que convivem sem se anular:

  1. O fazendeiro mineiro. Um devoto vindo de Minas, que já permitia o culto aos escravizados, teria se mudado para a região trazendo a Congada e, para pagar uma promessa, erguido a Igreja de Nossa Senhora dos Homens Pretos;
  2. A permissão noturna. Escravizados que trabalhavam ou passavam pela região recebiam autorização para festejar à noite, terminado o serviço — desde que louvassem apenas santos católicos;
  3. A tradição de Ouvidor. Segundo lideranças da própria Irmandade, a festa veio das fazendas do município vizinho de Ouvidor, onde os senhores de engenho não davam liberdade aos negros e o Rosário abria a única brecha possível.
Congueiros em São Sebastião. Século XX (Foto: Ari André).

Essa terceira versão merece atenção especial de quem estuda o tema. Ela desfaz a ideia de que exista um centro e uma periferia: Ouvidor não é satélite da história de Catalão — Ouvidor está dentro dela. O que hoje chamamos de sudeste goiano das Congadas é menos uma cidade com cidades ao redor do que um berço compartilhado.

Independentemente da versão, o consenso documental aponta um elo umbilical com Minas Gerais. Em 1927, o intendente Augusto Netto Carneiro cumpriu uma promessa herdada do padrasto e enviou um grupo de dançadores a Araxá para aprender a dança do Moçambique. A Congada goiana é, nessa medida, também filha das Congadas mineiras — e a estrada nunca se fechou. Nos encontros de hoje, ternos de Uberlândia e Ituiutaba continuam atravessando a divisa para louvar. O sudeste goiano não é uma ilha: é um entroncamento.

E a consolidação foi disputada. A festa começou nas sedes das grandes fazendas, com os coronéis revezando-se como festeiros. Migrou para a cidade com o êxodo rural, foi expulsa de volta para o campo quando religiosos passaram a rejeitar seu sincretismo — houve um tempo em que a Igreja foi trancada aos congadeiros, que arrombaram a porta e entraram com seus tambores. Só voltou em definitivo com a construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, erguida em mutirão pela Irmandade a partir de um terreno doado em 1936 e concluída apenas em 1951, quinze anos depois. Nossa Senhora do Rosário tornou-se padroeira de Catalão por lei municipal em 1973. Cento e cinquenta anos não foram um rio calmo, foi uma conquista renovada a cada ano.

A Formação da Congada

Em junho de 2025, após 17 anos de mobilização de mestres, mestras, lideranças e comunidades, o Conselho Consultivo do IPHAN aprovou por unanimidade o registro dos “Saberes do Rosário: Reinados, Congados e Congadas” no Livro dos Saberes, como Patrimônio Cultural do Brasil, abrangendo práticas de Minas Gerais, São Paulo e Goiás.

O processo teve relatoria da historiadora e mestra Alessandra Ribeiro Martins. A presidência do Instituto definiu o ato como reparação histórica e justiça social — palavras que, aplicadas a uma tradição por tanto tempo marginalizada, não são retóricas.

No plano estadual, a Lei nº 23.786, de 3 de novembro de 2025, conferiu a Catalão o título de Capital Goiana da Congada, e Goiás instituiu a Semana Estadual de Valorização das Congadas, celebrada na semana anterior ao segundo domingo de outubro.

E tudo isso desemboca em 2026: o sesquicentenário. Cento e cinquenta anos de uma festa nascida de uma promessa de fé, sustentada por gente que trabalha o ano inteiro para colocar um terno na rua.

Foto: Acervo do Projeto Encontro Estadual de Congadas.

É nesse marco que se realiza o 3º Encontro Estadual de Congadas de Goiás, realização da Anunciação Cultura, com patrocínio da CMOC Brasil por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet) e apoio das prefeituras de Catalão, Ouvidor e Três Ranchos. Totalmente gratuito, aberto ao público e estruturado com plenas medidas de acessibilidade física e de conteúdo, o Encontro atua como polo de salvaguarda da cultura popular — e como o lugar onde os ternos deste território, e os que vêm de fora dele, voltam a se reconhecer.

O primeiro Encontro foi em Ouvidor, em 2024. O segundo, em Catalão, em 2025. O terceiro chega no ano em que a festa completa 150 anos.

Não deixe essa festa acabar!

Para MERGULHAR no ASSUNTO:
A Congada no sudeste goiano

MESQUITA, Janaina Faleiro Lucas. Sob as contas do rosário: objetos e lugares da Festa em Louvor a Nossa Senhora do Rosário em Catalão, Goiás. Dissertação (Mestrado) — Escola de Arquitetura, UFMG, 2016. A referência mais completa sobre a festa catalana: história, ternos, objetos e lugares.

VAZ, José Luiz. Congadas no Sudeste de Goiás: Catalão, Ouvidor e Três Ranchos. Ilustrações de Yuro. São Paulo: 5ponto3, 2024. Obra infantojuvenil que apresenta as Congadas do território a novos leitores. Acesse gratuitamente aqui.

KATRIB, Cairo Mohamad Ibrahim. Estudos sobre a Festa de Nossa Senhora do Rosário de Catalão (UFU).

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Estudos sobre a festa e a cultura popular em Goiás.

Fundamentos sobre as Congadas no Brasil

MELLO E SOUZA, Marina de. Reis negros no Brasil escravista: história da festa de coroação de Rei Congo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.

MARTINS, Leda Maria. Afrografias da memória: o Reinado do Rosário no Jatobá. São Paulo: Perspectiva; Belo Horizonte: Mazza, 1997.

GOMES, Núbia Pereira de Magalhães; PEREIRA, Edimilson de Almeida. Negras raízes mineiras: os Arturos. 2000.

BRASILEIRO, Jeremias. Obras sobre os Congados — o olhar de um pesquisador que é também congadeiro.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro.

Documento oficial

IPHAN. Saberes do Rosário: Reinados, Congados e Congadas — dossiê e parecer de registro, 2025. Disponível no portal do IPHAN.

QUEM FAZ A CONGADA ACONTECER