No Brasil, os primeiros registros das Festas em Louvor a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito datam do início do século XVIII — por volta de 1711, na antiga Vila Rica, atual Ouro Preto. Não é acaso: o ouro atraiu para as Minas um enorme contingente de africanos escravizados, e ali a manifestação encontrou sua primeira base.
A estrutura que a abrigou foram as Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos — associações de leigos, regidas por compromissos aprovados pela Igreja ou pela Coroa, que reuniam pessoas escravizadas, alforriadas e livres em torno do culto a santos negros: Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia.
E aqui está o ponto que nenhuma leitura séria da Congada pode contornar. Essas festas cumpriam, simultaneamente, duas funções opostas. Para o Estado e para a Igreja, permitir a coroação simbólica de “reis do Congo” era estratégia de controle social e manutenção da ordem — dar aos negros uma realeza de faz de conta era um modo de administrá-los. Para os escravizados, a mesma festa era resistência: um modo de recriar identidade nas condições da sociedade escravista e de manter vivas as ligações rituais e religiosas com a África. Como sintetiza a historiadora Marina de Mello e Souza, os reis negros do Brasil escravista foram polos aglutinadores de comunidades que construíam novas identidades a partir dos legados africanos.
Essa ambiguidade não é um defeito da tradição. É o motor dela. A Congada nasce no interior de um mecanismo de dominação e o converte, por dentro, em instrumento de sobrevivência cultural.
Duas figuras ancoram essa memória. Chico Rei — Francisco da Natividade —, o rei africano que, segundo a lenda mineira, comprou a própria alforria e a de seus companheiros após enriquecer numa mina, ergueu uma igreja e formou o primeiro grupo de congo do estado. E, mais ao fundo, a Rainha Ginga (Njinga Mbandi), soberana que resistiu aos portugueses em Angola no século XVII e cuja memória os bailados rememoram.
Vale um registro de precisão. O folclorista Câmara Cascudo descreveu classicamente o Congado a partir de três elementos: a coroação dos reis do Congo, as embaixadas (duelos verbais dramatizados entre reinos) e as danças guerreiras comemorativas. Essa estrutura completa, porém, praticamente já não se encontra — e, no sudeste goiano, ela nunca se firmou. Como documenta a pesquisadora Janaina Faleiro Lucas Mesquita, em Catalão não há representações de Ginga ou Chico Rei, nem embaixadas: a família real acompanha os cortejos, mas sem encenação dramática. O que se vê é o cortejo, o louvor e a devoção. Isso não é ausência — é uma feição própria, e uma das chaves para entender o que a região fez com o que recebeu.